A paixão de Jesus Cristo segundo o Gênesis (5)

“Adão pôs à sua mulher o nome de Eva, porque ela era a mãe de todos os viventes” (Gn 3,20).

Havia uma mulher distinta, que estava envolvida com Adão, o primeiro homem, à queda do mundo em pecado. Essa foi Eva, a primeira mulher. Foi a transgressão de Adão, que constituiu o pecado original. Mas Eva estava ligada de modo instrumental com os acontecimentos que trouxeram o pecado original (cf. Gn3,1-6).

Assim como “a mulher” (Eva) estava intimamente envolvida nos acontecimentos que antecederam o pecado original, havia uma mulher intimamente envolvida nos acontecimentos que antecederam a Redenção. Essa é Maria, a mãe de Jesus Cristo. Ela é a nova Eva: “A tradição cristã vê nesta passagem um anúncio do “novo Adão”, que, por sua “obediência até a morte de Cruz” (Fl 2,8), repara com superabundância a desobediência de Adão. De resto, numerosos Padres e Doutores da Igreja veem na mulher anunciada no “proto-evangelho” a mãe de Cristo, Maria, como “nova Eva” (Cf. Catecismo da Igreja Católica, §411).

Entre os paralelos percebemos: Eva era ainda virgem, ainda que tinha esposo/ Maria era virgem mesmo casada com José; Eva foi seduzida para mentir/ Maria recebe a boa notícia da verdade; Eva é seduzida por um anjo (anjo caído, demônio)/ Maria um anjo lhe traz a Palavra; Eva é desobediente/ Maria é obediente; Eva traz a morte para ela e para a raça humana/ Maria traz a salvação para ela e para a raça humana; a desobediência de Eva procede de sua falta de fé/ a obediência de Maria procede de sua fé; ao desobedecer, Eva foge da presença Deus/ ao obedecer, Maria atrai a Deus a seu ventre. Assim, “nossa primeira queda teve lugar quando a mulher de quem herdamos a morte concebeu, em seu coração, o veneno da serpente. A serpente, com efeito, a persuadiu a pecar e este mal conselho encontrou guarida em seus ouvidos. Se nossa primeira queda teve lugar quando a mulher concebeu em seu coração o veneno da serpente, não há de estranhar-nos que nossa saúde tenha sido restaurada quando outra mulher concebeu em seu seio a carne do Todo-Poderoso. Um e outro sexo tinham caído; um e outro tinham que ser restaurados. Por uma mulher fomos entregues à morte; por uma mulher nos foi devolvida a saúde” (Santo Agostinho. Sermão 289,2).

Depois de ter recordado a presença de Maria e das outras mulheres junto da cruz do Senhor, São João refere: “Ao ver Sua Mãe e junto dela o discípulo que Ele amava, Jesus disse à Sua mãe: ‘Mulher, eis aí o teu filho’. Depois disse ao discípulo: ‘Eis aí a tua Mãe’” (Jo 19,26-27). Com efeito, ao dirigir-se, no fim da Sua vida terrena, à Mãe e ao discípulo que Ele amava, o Messias crucificado estabelece novas relações de amor entre Maria e os cristãos. Jesus já tinha dado tudo de si e pendia na cruz entre a vida e a morte. E então, como última dádiva do seu amor, não tendo mais nada para dar, Ele nos dá Sua Mãe. Portanto, se somos filhos de Maria, nós o somos não simbolicamente, mas, por graça de Deus, de modo que a Virgem é claramente a Mãe de todos nós.

Pe. Enéas de Camargo Bête

Fonte: Jornal O Verbo

2018-10-11T15:17:43+00:00