O grande Sábado Santo

O grande e santo “Sabbat” (Sábado Santo) é o dia que liga a Sexta-Feira Santa, a comemoração da Cruz, ao dia da Ressurreição. A Igreja proclama que o Cristo “venceu a morte pela morte”; isto quer dizer que, antes mesmo da ressurreição, coloca-se um acontecimento no qual a tristeza não é simplesmente substituída pela alegria, mas ela própria é transformada em alegria. O grande Sábado é precisamente este dia de transformação, o dia em que a vitória germina de dentro mesmo da derrota, uma vez que antes da ressurreição nos é dado contemplar a morte da própria morte.

Quando chegamos à igreja, na manhã do Sábado santo, a Sexta-feira, justamente, acaba de terminar, do ponto de vista litúrgico. É por isso que a tristeza da Sexta-feira é o tema inicial.

O salmo 118 é cantado e a cada versículo acrescenta-se um canto especial que exprime o horror dos homens e o estupor da criação inteira diante da morte de Jesus: “Colinas e vales, e vós, multidão dos homens, chorai! E vós, todo o Universo, lamentai-vos comigo, a Mãe de vosso Deus”.

E, entretanto, desde o começo, acompanhando o tema inicial da tristeza e de lamentação, aparece um novo tema que se tornará pouco a pouco mais aparente. Nós o encontramos, aliás, no mesmo salmo 118: “Felizes aqueles que são irreprováveis em seus caminhos, aqueles que seguem na lei do Senhor”. A verdadeira vida consiste em guardar, cumprindo a lei divina, esta vida com Deus, em Deus e para Deus, para a qual foi criado.

A morte do Cristo é a prova suprema de seu amor pela vontade de Deus, de sua obediência ao Pai. Ela é um ato de pura obediência, de confiança total nesta vontade; e, para a Igreja, é precisamente esta obediência até o fim, esta perfeita humildade do Filho que é o fundamento e o começo de sua vitória. O Pai deseja esta morte, o Filho aceita-a, revelando assim uma fé incondicional na perfeição da vontade do Pai e na necessidade deste sacrifício do Filho pelo Pai.

Mas, por que o Pai deseja esta morte? Por que ela é necessária? Na linguagem concreta da Bíblia, “o Hades” é o reino da morte, esse estado de trevas, de desespero e destruição que é a morte. E, já que ele é o reino da morte, que Deus não criou e não quis, significa também que o Príncipe deste mundo é todo-poderoso no mundo. Satã, pecado, morte: tais são as dimensões do Hades, seu conteúdo. Pois o pecado vem de Satã e seu fruto é a morte: “O pecado entrou no mundo e pelo pecado, a morte” (Rom. 5,12). “A morte reinou de Adão a Moisés” (Rom. 5,14).

O universo inteiro tornara-se um cemitério cósmico e estava condenado à destruição e ao desespero. Eis porque “o último inimigo é a morte” (l Cor. 15,26) e sua destruição constitui a meta final da Encarnação. O encontro com a morte é “a hora” do Cristo, da qual ele dizia: “É para esta hora que eu vim” (João 12,27). E agora, ela chegou, e o Filho de Deus penetra o interior da morte. Os Padres descreveram este momento como um duelo entre o Cristo e a morte, entre o Cristo e Satã, pois esta morte devia ser, ou bem, o último triunfo de Satã, ou bem, sua derrota decisiva.

O duelo desenrola-se em várias etapas. Primeiro, as forças do mal parecem triunfar; o Justo é crucificado, abandonado por todos; Ele suporta uma morte ignominiosa; Ele se torna, além disso, participante do Hades, esse lugar de trevas e desespero… Mas, no mesmo momento aparece o verdadeiro sentido de sua morte. Aquele que morre na cruz possui a vida em si mesmo; ou seja, ele tem a vida, não como um dom recebido do exterior, algo que se lhe pudesse retirar, mas como sua própria essência. Ela é a vida e a fonte de toda vida. “Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens.” Como homem, Ele pode realmente morrer; mas n’Ele é Deus quem entra no reino da morte, quem experimenta a morte. Tal é a dimensão única e incomparável da morte do Cristo: o homem que morre é Deus, ou, mais precisamente, o Homem-Deus. Deus é o Santo imortal; e é somente na unidade, sem confusão, sem mudança, sem divisão, nem separação de Deus e do homem no Cristo, que a morte humana é assumida por Deus e é vencida e destruída de dentro, “esmagada pela morte”.

Agora nós compreendemos porque Deus deseja esta morte, porque o Pai entrega a ela seu Filho único. Ele deseja a salvação do homem, quer dizer, que a destruição da morte não seja um ato de seu poder (“Tu não sabes que eu posso rogar ao Pai que me envie, na hora, mais de doze legiões de anjos?”), nem uma violência, fosse ela salvadora, mas um ato desse amor, dessa liberdade e dessa livre consagração a Deus, pelas quais Ele criou o homem. Qualquer outro modo de salvação teria sido contrário à natureza do homem e não seria, pois, uma salvação real. Donde, a necessidade da Encarnação e a necessidade dessa morte divina… No Cristo, o homem restaura a obediência e o amor; pelo Cristo, o homem pode vencer o pecado e o mal. Era essencial que a morte fosse não só destruída por Deus, mas vencida e soterrada na natureza humana mesma, pelo homem e no homem. “É por um homem que a morte veio; é também por um homem que vem a ressurreição dos mortos” (l Cor. 15,21).

O Cristo aceita livremente a morte, e de sua vida ele diz que “Ninguém ma tira de mim, mas eu mesmo a dou” (João 10,18). Isto não foi sem lutas: “Ele começou a ficar triste e abatido” (Mt. 26,27). Assim se cumpre a medida plena de sua obediência, assim se acha destruída a raiz moral da morte, como ranço do pecado. Toda a vida de Jesus está em Deus, como toda a vida humana o deveria; e é esta plenitude de vida, esta vida rica de sentido e conteúdo, repleta de Deus, que triunfa da morte e destrói seu poder. Pois a morte é antes de tudo a ausência de vida, destruição da vida que se separou de sua única fonte. E porque a morte do Cristo é um gesto de amor a Deus, um ato de obediência e de confiança, de fé e de perfeição. Ela é um ato de vida (“Pai, em Tuas mãos encomendo meu espírito” Lc. 23,46) que destrói a morte. É a morte da própria morte.

Este é o sentido da descida de Jesus ao Hades, a sua morte tornando-se sua vitória.

Subsídios Homiléticos – padre Pavlos Tamanini

2019-04-26T00:35:43+00:00